quinta-feira, 7 de setembro de 2017

TRAVESSIA COMPLETA, EU INTEIRA



Ao partir fui em busca dos meus pedaços.
O tempo era de travessia e no caminho, o caminhante era transformado.

Foi um longo caminho.
Estradas empoeiradas, buracos sem fim;
Curvas sinuosas, vielas estreitas
Becos sem saída e ruas escuras.

Fui caminhante sem escolha,
Andarilho perdido sem ponto de partida.
Seguia o destino sem rumo de chegada.

Senti fome, tive sede, solidão e desalento.
Nas passadas, pedras machucavam os meus pés;
Sol e frio cortavam o meu rosto
O sono por esmola dominava o meu corpo.

Meus pensamentos eram rasos 
Minhas lembranças profundas
As poucas lágrimas que escorriam
Inundavam todos os meus passos.

Me perdi ao partir
Deixei aqui tudo o que era eu.
No caminho fui recompondo as partes,
Me reinventando com pedaços que eram meus.

Eu com meu imenso vazio
Não sabia onde estava indo
Apenas morava em mim a certeza de chegar

No trajeto fui tirando tudo o que não me cabia mais
Atravessando as pontes que me separavam de mim
A vida foi entrando nos eixos, criando formas, criando novos conteúdos.

Rastros e pegadas não fizeram meu caminho
Olhar para a frente foi que o fez
Ao lutar minhas batalhas, encontrei a paz em meio às minhas guerras.

O Rio que corre manso não se apressa porque sabe que ora ou outra vai chegar
Assim me encontrei, sem pressa
Partes de mim fui deixando no percurso

Travessia completa, eu inteira.

sábado, 24 de setembro de 2016

DENTRO DE UM ABRAÇO



Tem abraço que não necessita palavras, pois o abraço expressa o que as palavras não conseguem dizer, nele cabe tudo o que há de mais bonito.

Um abraço ilumina tudo o que estava escuro, acende nova luz ao caminho, faz a eternidade caber em segundos, traz cura, segura o nosso mundo.

No silêncio de um abraço o tempo para, os pensamentos se cruzam, os corações se encontram e ficam em paz.
Tudo o que a gente chora e sente, dentro de um abraço se dissolve, pois o melhor lugar para se estar é dentro de um abraço.

O abraço transpõe pontes, torna os motivos das lágrimas efêmero, nos faz transpor abismos inteiros.
Que a vida nos ensine que ter razão é somente uma questão do ponto de vista pelo qual se olha.
Que o tempo nos mostre que o que é de verdade jamais se apaga.
Que o perdão perdoe quando menos merecermos.
Que todos os verbos prometidos virem ações: amar, esperar, respeitar, perdoar, viver, eternizar.
Que a esperança jamais deixe de nos habitar.
Que os erros sejam corrigidos, as faltas apagadas e os novos caminhos traçados à luz da paz.
Que tudo se faça novo, que sejamos de verdade sempre.

Que os abraços nos cure e a vida no ensine que nada importa mais do que outro.

domingo, 26 de junho de 2016

UM MONÓLOGO SEM EXPECTADORES



A minha essência faz silêncio dentro de mim.
Não me mostro a quem não entra em mim para me conhecer.
Não me revelo a quem não pode me ver.
Minha vida inteira, vivo-a num único dia.
Meus sonhos, desesperos, paixões, choros e risos, angústias e alegrias são só meus, compartilho-as com o outro eu que existe em mim.

Sempre fui a outra metade de mim, o dilúvio que inundou meu deserto, o silêncio que gritou na noite escura, o campo de batalha que morava em meu peito, fui o soldado lutando suas próprias guerras.
Sou pedaços de mim, que juntou as partes imperfeitas para construir o todo sem jeito.
Sou essencialmente humana.

Tenho enchido o meu espírito de coisas que em outro tempo eu deixei de acreditar.
Caminhei muito para entender que o que busquei nunca saiu do lugar.
Deixei arranharem o exterior mas nunca puderam tocar o que está por dentro.

Reciclei os meus textos, mudei as palavras, reinventei meu contexto.
Dei fim aos pretextos, inventei um prefácio, um refrão.
Mudei a poesia, a rima, a estrofe.
As notas rasurei.
Para dar sentido a tudo que não era sentido.

Refiz meus escritos, apontei o lápis e cessei as palavras.
Escrevi tudo o que não foi dito, reescrevi minha vida e reeditei minha história.
Mergulhei onde só eu poderia me encontrar.

Mares turvos, que no mais profundo escondia límpidas águas.
Submergi em mim mesma e emergi da superfície que em mim restava.
E o que hoje flui reflete a busca, descortina o encontro e dá sentido ao caminhar.
Minha águas são claras, como claro é o que há mim.  

quarta-feira, 20 de abril de 2016

O “PRA SEMPRE” NÃO DEPENDE DA GENTE



Ainda me surpreendo com aquilo que não deveria ser surpresa
Ainda choro com o que não merece minhas lágrimas
Ainda busco o que sei, nunca irei encontrar
Ainda sonho, com o que não deveria mais sonhar
Ainda...

O sol as vezes se esconde mas ele ainda está lá
Esperando que as nuvens abram espaço para que ele volte a brilhar
Ele pacientemente espera, pois sabe que tem seu lugar

A gente não se dá conta quando diz “pra sempre”
E esquece de viver sozinho
Esquece que o “pra sempre” inclui o outro
E que o sempre do outro foi acabando de mansinho
Então vamos vivendo o “pra sempre” sozinho
Esperando que o “ainda” faça sentido no outro
E que a esperança encontre pouso
Onde as palavras perderam o ninho

As coisas que nem sempre são pra sempre
Nos fazem perder o rumo, a direção
Mas a esperança grita: segue o seu destino
Bata as asas, não olhe para o chão.

O sol sempre há de brilhar
Mesmo que as nuvens demorem a abrir espaço
O “pra sempre” não depende da gente

Mas que o “ainda” seja o nosso lugar.  

segunda-feira, 25 de janeiro de 2016

O QUE ENXERGA O CORAÇÃO




Que os meus olhos possam apreciar as pessoas não pelo que elas são
Mas por aquilo que elas podem tornar-se

Que os meus olhos possam ver sempre a melhor parte
Tornar os buracos pouco visíveis
Ainda que os erros tornem grande as imperfeições.

Que os meus olhos possam ver além das aparências
Enxergar aquém do que o homem pode mostrar.
E ao pousar os meus olhos com amor, entender tudo aquilo que o outro pode revelar.

Que os meus olhos possam contemplar o coração
Ver a bondade escondida, onde mesmo ela nem habite.
Enxergar o que de melhor possa haver.
Ainda que o exterior não seja bom de se ver

Os olhos de quem enxerga com amor;
Vê brilho onde não há beleza aparentemente.
E que o brilho, ainda que ofuscado, nunca deixe de ser o que me inspira.
Seja sempre o brilho, o que enxerga o coração.

segunda-feira, 4 de janeiro de 2016

VAI HAVER DIAS



Vai haver dias em que eu desejarei à noite e o silêncio que ela ecoa.
Vai haver dias em que eu desejarei o dia e o barulho das pessoas a passar por mim.
As vezes o tempo parece que fica mais rápido que a vida. E esquecemos de dar importância ao que realmente tem valor.
E, sem o sentido da passagem dos dias, da importância dos momentos, de começo e fim, ficamos também sem presente, vamos perdendo a noção do tempo, que fica sem sossego, sem noite e sem dia...


Vai haver dias que eu cansarei de lutar e me entregarei inerte ao cansaço.
Vai haver dias que em mim tanta força haverá que me sentirei capaz de mover o mundo.
Examino ao meu redor, e percebo a natureza, que em sua infinita sabedoria, ainda que judiada e machucada pela mão do homem não deixa de dar a ele sua beleza e seu sustento.
Que a natureza nos sirva de exemplo: de como amar, servir, se renovar.
E como entender que mil anos não bastam para aprender a fazer o bem.


Vai haver dias em que terei vontade que tudo permaneça igual.
Vai haver dias em que desejarei mudar tudo ao redor.
Perder dói, abandonar algo traz marcas, mas os milagres só acontecem quando deixamos que o inesperado aconteça.
Mover-se faz com que nós possamos ver caminhos que não podíamos enxergar parados.
Muitas vezes perder algo de valor é o jeito de encontrar algo ainda mais precioso no caminho.


Vai haver dias em que perderei a fé nos homens.
Vai haver dias em que os homens restaurarão a minha fé.
As ações dos homens são as melhores intérpretes dos seus pensamentos. As palavras passam com o vento, mas as atitudes se firmam como a rocha.
O que digo nada importa, se não for acompanhado do que eu faço e do que eu sou.


Sempre haverá dias... Bons ou Maus, Longos ou Curtos.
Mas sempre, ainda que eu não veja, haverá esperança nos dias de solidão, respostas nos instantes de dúvidas, e certeza nos meus momentos de fé. 

quarta-feira, 14 de outubro de 2015

AS PALAVRAS, SUAS MELODIAS E SEUS TONS


No que as palavras não dizem encontramos respostas,
No que elas não cantam extraímos o som perfeito.
No que elas se calam repousa o conforto
No que elas gritam sobram desencontros.

Amo as palavras, amo o que não se diz através delas.
O tom da sua afinação e a melodia dos seus sentidos.
Amo o compasso dos seus sons, com seus pulsos e repousos.

Amo as palavras escritas com estrofes que rimam e com poesias cantadas
Seus sons harmoniosos fazem bem à alma.
Mas as palavras que saem sem direção, desconstroem a harmonia.
Deixam sem ritmo a composição.
O descompasso de sua harmonia, entristece o coração.

As palavras que cantam estrofes sem rimas, desencadeiam os acordes.
Propiciam desencontros de sons
Tornam dissonantes as suas notas.

A harmonia se articula com a organização interna, com sabedoria em recitá-las.
O sarau dos seus sentidos faz dançar a multiplicidade dos seus tons.

O que ninguém percebe é o que todo mundo sabe...
Que o silêncio ganha em seus efeitos
Quando a palavra perde em seu significado.

segunda-feira, 28 de setembro de 2015

DUALIDADES POSSÍVEIS



O universo criado no caos
Na explosão gerou-se a vida
Das trevas nasceu a luz
Do nada o tudo se fez
Da noite se fez o dia
Dualidades possíveis

A criação feita do que não tinha vida.
E a vida que começou com a morte
Um casulo em metamorfose
A majestosa borboleta que larva foi outrora
Esperanças duais

Sonhos que se realizam
Realidades não sonhadas
Uma vida inteira de expectativas
Expectativas que não viemos a ter
Dualidades vividas

Um tornado em alto mar, nada causa além de agitar as águas
Em terra destrói tudo ao redor
Casualidades remotas e acasos constantes
Dualidades possíveis, possibilidades duais

O ser, que não é
O que é, e nunca quis ser
O sol sempre a nascer, ainda que ninguém o perceba,
E a lua tímida centena de vezes menor que o sol não tem tem como não ser percebida
Dualidades...

De tudo que temos nada se levará
Do nada que somos, cabe o mundo inteiro dentro de nós
Do pó da terra que fomos criado
Do pó da terra que nos tornaremos
Dualidades do Criador

Dualidades de quem ousou ser mais de um
Dualidades de quem amou o mundo, sem ao mundo pertencer
Dualidades que nos fez

Dualidades que somos nós...

terça-feira, 25 de agosto de 2015

SOU EU QUEM ENCENA O MEU TEATRO



No teatro de marionetes, eu sou mais um boneco.
Não o que brilha quando as cortinas se abrem
Nem o que é aplaudido quando as luzes se acendem.

Talvez o coadjuvante com uma fala qualquer.
Ou aquele esquecido num canto, que só uma vez ou outra entra em cena.
O ator frustrado de pequenos papéis, o figurante mudo de algo sem audiência.

Mas no espetáculo da vida, sou eu quem dirijo as minhas próprias cenas
Atuo com segurança as linhas escritas por mim
Represento meu próprio papel, sou protagonista da minha própria história.

Meu monólogo não tem espectadores, sou eu quem me assisto através do espelho.
Sou o artista que se aplaude.
Não preciso de espectadores, sozinha sou minha própria platéia.

Sei quem sou e qual o meu papel
Sou a atriz principal no show da minha vida.
Não há dublês nas ações perigosas;
Minhas comédias só aos outros fazem rir; 
Meus dramas são encenados no meu íntimo; 
E as ficções não se enquadram na minha realidade.

Não há heróis nos meus quadrinhos
Não há cavaleiros nas minhas épicas batalhas
Minhas guerras, luto-as internamente
E os romances vividos... Acabam quase sempre em tragédias.

A minha auto biografia, sem continuações, vem sendo escrita por um autor renomado
Que apostou em um iniciante.
Escrita por Deus, que escalou um iniciante nos caminhos da vida,
Sempre aprendendo com um novo personagem, com outros atores e com novas histórias.

No filme da vida, o "gravando" conta desde que vim ao mundo , e o cortar da cena final, marcará o fim da história do que fui e deixei ser, do que aprendi e ensinei, do que rasurei e do que deixei escrito para ser lido.

segunda-feira, 17 de agosto de 2015

O IMENSO VAZIO QUE O RIO TRAZ



O rio ainda que transbordante nada possui, pois tudo que ele recebe, se vai tão rapidamente...
O rio com seu imenso vazio sabe para onde ir, e não se apressa, sabe que ora ou outra vai chegar.
Ele conhece a calmaria, e tem intimidade com a tempestade, tudo suporta, tudo sofre, tudo espera. Pois sabe que seu curso já foi escrito e seu caminho é um só, seguir seu destino.

A imensa solidão não impede o rio de correr, de oferecer suas águas àqueles que o maltrata. De ser o frescor a quem em seu leito se achega.
Ele a todos recebe, bons ou maus tem lugar em suas águas e em seu imenso vazio.

Das margens não é possível conhecer o rio, nem ele a si mesmo conhece, pois não se encontra duas vezes com as mesmas águas. Elas vem e vão, deixando-o só, com suas muitas lembranças.

Quando suas águas encontram dificuldades para passar, ele aponta um novo caminho.
Ensina as águas a atravessar as pedras, a mudar a direção.
O amor, assim como o rio faz com suas águas, aponta um novo caminho toda vez que encontra obstáculos.

Bertolt Brecht sabiamente citou "Todo mundo chama de violento a um rio turbulento, mas ninguém se lembra de chamar de violentas as margens que o aprisionam"
A margem não se importa com o rio, ela o oprime, não o deixa correr, ela se estende por todo o rio, mas não deixa o rio sobre ela se estender.
Mas o rio não se importa, se sente feliz em seu imenso vazio, se sente em paz no seu imenso silêncio, sabe lhe dar com o barulho dentro dele, e se sente útil por refletir a luz das estrelas e fazer a noite mais clara.

Jamais o rio se encontrará com as mesmas águas, essas já passaram.
Outras haverão, essas não mais. Ele espera ansioso por novas águas.
Mas as muitas águas não conseguem apagar o imenso vazio que o rio traz.