quinta-feira, 9 de julho de 2026

EU PRECISEI SER NINHO, GALHO E ABRIGO



Antes de desaguar na imensidão do azul, eu precisei caber em margens pequenas e horizontes emprestados.

Fui ninho construído com paciência, o abrigo apertado contra as tempestades e a casca que protege, mas prende. Fui a segurança estática de quem olha para cima e abriga sonhos que não eram meus. Fui, por muito tempo, a permanência confundida com o destino.


Depois, fui galho onde outros descansaram. O pouso firme de madeira onde corações alheios se curavam, enquanto eu mesma esquecia a mecânica dos meus músculos. Fui também pena arrancada pelo vento, o silêncio dolorido entre uma revoada e outra, e o medo profundo de quem olhava para o céu sem acreditar que lhe pertencia. 


Carreguei asas sem compreender que elas não existiam para proteger o chão, mas para desafiar a distância.

Fui o ensaio desajeitado, o bater que arrisca a queda, a força que rasga o ar procurando um rumo.


Demorou o tempo exato de todas as estações, mas finalmente descobri que há um instante em que todo pássaro precisa abandonar o galho que ama para encontrar o céu que merece. Eu precisei ser ninho, galho e abrigo... antes de aprender a ser voo.


Hoje, já não busco o firmamento; eu me tornei o próprio vento entre as nuvens. O espaço que me sustenta é o mesmo que eu crio. E, nessa imensidão, descobri que a liberdade não é o eterno desterro, nem o peso de nunca mais voltar.


Liberdade é a paz de saber que, depois de tanto tempo sendo o chão dos outros, o céu também pode ser casa para quem nasceu com asas.

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