Antes de desaguar na imensidão do azul, eu precisei caber em margens pequenas e horizontes emprestados.
Fui ninho construído com paciência, o abrigo apertado contra as tempestades e a casca que protege, mas prende. Fui a segurança estática de quem olha para cima e abriga sonhos que não eram meus. Fui, por muito tempo, a permanência confundida com o destino.
Depois, fui galho onde outros descansaram. O pouso firme de madeira onde corações alheios se curavam, enquanto eu mesma esquecia a mecânica dos meus músculos. Fui também pena arrancada pelo vento, o silêncio dolorido entre uma revoada e outra, e o medo profundo de quem olhava para o céu sem acreditar que lhe pertencia.
Carreguei asas sem compreender que elas não existiam para proteger o chão, mas para desafiar a distância.
Fui o ensaio desajeitado, o bater que arrisca a queda, a força que rasga o ar procurando um rumo.
Demorou o tempo exato de todas as estações, mas finalmente descobri que há um instante em que todo pássaro precisa abandonar o galho que ama para encontrar o céu que merece. Eu precisei ser ninho, galho e abrigo... antes de aprender a ser voo.
Hoje, já não busco o firmamento; eu me tornei o próprio vento entre as nuvens. O espaço que me sustenta é o mesmo que eu crio. E, nessa imensidão, descobri que a liberdade não é o eterno desterro, nem o peso de nunca mais voltar.
Liberdade é a paz de saber que, depois de tanto tempo sendo o chão dos outros, o céu também pode ser casa para quem nasceu com asas.
