quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

 


A vida se move em círculos, como se cada existência obedecesse a um relógio secreto que não marca horas, mas pulsações. E assim como o ano se desdobra em estações, também nós desabrochamos, ardemos, caímos e renascemos — sempre um pouco diferentes, sempre um pouco mais nós mesmos.


Há momentos de primavera, quando tudo parece possível. É quando a alma abre janelas para dentro e para fora, permitindo que a luz encontre seus cantos esquecidos. Brotam ideias, afetos, delicadezas. O mundo parece feito de uma leveza que não pesa, de caminhos que se multiplicam. Somos sementes despertando, percebendo que dentro de nós há mais vida do que imaginávamos. É o tempo do encantamento, da descoberta, da coragem suave de começar.


Mas a primavera não dura para sempre. Avançamos para o verão, quando o sol esquenta demais e exige intensidade. É a fase das grandes decisões, dos dias longos, da urgência de viver tudo o que antes estava apenas germinando. O calor nos ensina força e resistência. Há brilhos e tempestades, há alegrias que explodem como fogos no céu e cansaços que pesam como a própria luz. No verão, somos chamados a provar o que desejamos, a sustentar o que floresceu, a lidar com a plenitude e com o excesso. É um tempo bonito, mas é também o mais exigente.


Até que chega o outono, aquela estação que ensina a beleza do desapego. Nada mais precisa ser tão forte, tão urgente. As folhas começam a cair como pequenos adeuses, e cada uma delas lembra que é preciso deixar ir. É o período das revisões internas, das escolhas silenciosas, dos afetos que se reorganizam. As cores mudam, e nós mudamos com elas. No outono, aprendemos que perder também é um modo de seguir; que o desprendimento é, às vezes, o único caminho para reencontrar nossas próprias raízes.


Então vem o inverno, com seu frio que não é castigo, mas convite. Convite ao recolhimento, à escuta, ao descanso. É quando o mundo lá fora parece mais quieto, e o mundo dentro de nós se torna mais audível. Há uma poesia na dormência, uma força na pausa. O inverno nos convida a nos recolhermos para que algo, em silêncio, se recomponha. Não é o fim — é a preparação. Uma longa respiração antes de um novo ciclo.


E assim seguimos, estação após estação, deixando para trás e levando conosco aquilo que faz sentido. A vida não é linha reta; é espiral. A cada volta, repetimos algo do que já fomos, mas nunca do mesmo jeito. Somos primavera quando renascemos, verão quando lutamos, outono quando aceitamos, inverno quando nos reconstruímos. E em cada estação, descobrimos um fragmento da nossa própria eternidade — essa que reside no simples fato de continuar vivendo, transformando, circulando.


Porque no fundo, viver é isso: atravessar as estações sabendo que nenhuma delas nos define para sempre, mas todas nos completam. É aceitar a mudança como lei natural e a continuidade como milagre cotidiano. É ser, ao mesmo tempo, flor e folha, calor e silêncio, brilho e raiz. É reconhecer que a vida, em sua dança de ciclos, nos ensina a arte mais delicada de todas: a de recomeçar.










quarta-feira, 4 de fevereiro de 2026

A ESTRADA APAGA OS PRÓPRIOS RASTROS




Há ciclos que se fecham com estrondo, como portas batidas por um vento que não controlamos. Outros se encerram em silêncio, tão lentamente que só percebemos quando já estamos longe demais para ouvir o eco do que fomos do que deixamos. E há aqueles que simplesmente se dissolvem, como tinta na água, até restarem apenas memórias que podem doer ou não, mas que de qualquer forma já não chamam mais pelo nosso nome.


Às vezes, percebemos o fim apenas quando olhamos para trás e não reconhecemos mais o caminho, nem a própria pegada que deixamos nele. E entendemos, então, que aquilo que um dia nos definiu já não mora em nós.


Existem vínculos, afetos, presenças, não importa o nome que se dê, que se transformam com o tempo. O tempo, que arrasta estações e muda paisagens, também muda pessoas e tem passos próprios, e muda a rota.


Às vezes, há rompimentos por distâncias que o mapa explica; outras vezes, por distâncias que nenhum mapa traduz. Mas há também o que muda porque nós mudamos. O que antes cabia na nossa pele, hoje não encontra espaço. O que antes nos fazia sentido, agora pesa. E o que um dia nos completou, hoje apenas pertence ao que fomos.


Nesse movimento, há sempre algo de invisível. Nem sempre é o tempo que afasta; às vezes, são pequenas feridas que não cicatrizam no mesmo ritmo, pequenos silêncios que se acumulam, gestos que deixam de acontecer. Mágoas leves, quase imperceptíveis, mas que crescem como ervas entre as pedras e, quando damos por nós, o caminho já está irreconhecível. Não porque desejamos perder, mas porque perdemos sem perceber.


E assim seguimos, carregando versões antigas de nós mesmos que um dia tentaram permanecer, mas que, pouco a pouco, se esfarelaram. A pessoa que fui, aquela que sustentava certos laços, certas certezas, certas entregas, ficou presa em um tempo que não volta mais. Hoje caminho diferente, penso diferente, sinto diferente. E é natural que aquilo que existia em torno daquela versão também tenha se dissolvido, ficou guardada em algum canto do passado, como um retrato que não me representa mais. Hoje carrego novos medos, novas certezas, novos horizontes. Sou feita de outras paisagens internas, outros afetos, outras urgências.


E talvez você também tenha mudado, cada um a seu modo. Talvez tenhamos deixado de nos reconhecer não porque deixamos de gostar um do outro, mas porque deixamos de ser quem éramos. Existem vínculos que só existem dentro de uma época e quando essa época termina, o vínculo termina junto, mesmo que reste carinho. É como se tivesse sido escrita em uma estação que já passou.


O ciclo se fecha não como um gesto brusco, mas como a conclusão inevitável de uma narrativa que não tinha mais páginas para escrever. Um fim que não precisa ser declarado para ser compreendido. Algo que simplesmente deixou de se encaixar, como roupas que já não vestem o corpo que mudou.


Há uma tristeza delicada nisso, mas também há beleza. Fecha-se um ciclo, não em derrota, mas em aceitação. A vida nos ensina que nem tudo que começa precisa permanecer; algumas coisas vêm apenas para nos tornar quem somos. E se hoje sou outra pessoa, devo parte disso ao que vivi.


E, mesmo que haja uma sombra de dor nesse encerramento, existe também liberdade. Libertação do que já não nos acompanha, do que não conversa mais com o que somos hoje. Há uma beleza silenciosa em permitir que algo termine, sobretudo quando essa ruptura não vem de um único ato, mas de uma transformação profunda, íntima, que nos empurra para outros horizontes.


Não há retorno, não porque não seria bem-vindo, mas porque a pessoa que poderia voltar não existe mais. E a que existe agora caminha para frente, onde novos ciclos começam, onde novas histórias se formam.

Assim, deixo que esse ciclo se feche com delicadeza, com o reconhecimento de que ele cumpriu seu papel e reconhecendo que já não precisa continuar. O que vivi em outro tempo pertence àquela pessoa que eu já não sou. E seguir adiante é o gesto mais sincero que posso oferecer a tudo o que ficou para trás.


É assim que alguns ciclos se encerram: não com adeus, mas com entendimento. Com a gratidão silenciosa por tudo o que foi e pela liberdade de seguir adiante.



segunda-feira, 11 de agosto de 2025

HÁ UM INVERNO LÁ FORA, HÁ UM INVERNO EM NÓS

 

Foto: Cristiano Xavier/OneLapse


Lá fora o inverno se estende como um lençol cinza sobre a cidade. 

O vento caminha apressado pelas ruas desertas, sussurrando segredos antigos nas frestas das janelas. 

As árvores nuas erguem os braços secos ao céu, como quem suplica ao sol um raio de calor perdido. 

A chuva fina borda o ar, e a neblina faz do mundo um cenário de sonho. 

 

Há um silêncio frio que parece desacelerar o tempo, como se o próprio relógio do universo se curvasse ao peso da estação.

Mas aqui dentro, as paredes são o abraço invisível que impede o frio de entrar. 

O aroma quente do café recém passado espalha-se pela casa, um convite sutil ao aconchego. 

Entre as mãos, a xícara é um pequeno sol particular, aquecendo os dedos e o coração. 

 

E quando os olhos se perdem nas páginas de um livro, o inverno parece se dissolver: as palavras são cobertores que nos envolvem, histórias que nos levam para longe do frio, para terras onde o vento não alcança. 

 

O corpo se enrosca no cobertor como quem encontra um porto seguro, e a alma, essa parte que o inverno lá fora não alcança, acende suas pequenas fogueiras de lembranças e esperanças.

O inverno lá fora convida ao recolhimento, mas é aqui dentro que o calor verdadeiro se revela: o calor da casa, do café quente, das páginas que nos embalam, das palavras que aquecem, do olhar que conforta, da chama quieta daquilo que nos habita. 

 

Há um inverno no mundo e há um inverno em nós. 

O de lá, impiedoso, açoita as ruas e faz murchar as flores; 

O de cá, às vezes mais frio, pede que sejamos o abrigo uns dos outros. 

E enquanto lá fora o gelo insiste em dominar, aqui dentro resistimos: somos lareira, somos lume, somos essa promessa de primavera guardada no peito, esperando apenas o momento certo para florescer.




terça-feira, 29 de abril de 2025

O TEMPO, ARTESÃO DAS AUSÊNCIAS

 



Outro dia me peguei pensando no tempo — não no tempo do relógio ou do céu nublado, mas nesse tempo que passa e leva tudo com ele. Não é de uma vez, claro. O tempo não tem pressa. Ele vai tirando aos poucos.

O tempo é um mestre silencioso, um ourives de horas que trabalha com as mãos vazias. Ele não traz, apenas leva. Não preenche, só esvazia. E no seu ofício paciente, torna-se especialista em criar ausências.  O tempo, na verdade, é um escultor de vazios.

 

O tempo é mestre nisso: em afastar sem alarde. Não grita, não rompe. Apenas afasta. Vai apagando os rastros, como quem limpa pegadas da areia. E a gente segue, achando que está tudo igual, até perceber que algo falta — uma presença, uma palavra, uma rotina que fazia sentido.

No começo, é só um café que não acontece, uma conversa adiada, uma ligação esquecida. Depois, a cadeira permanece vazia mais vezes do que deveria. A risada que era trilha sonora vira eco. O perfume se mistura ao ar até se perder. O tempo não precisa correr, ele só espera. E no silêncio das horas, ele retira, com mãos leves, tudo aquilo que parecia imutável.

Ele desfia os dias como um tear desmanchando tecidos, transformando o que era tangível em sombra, o que era cheio em espaço. 

 

O tempo é exímio nesse ofício: não deixa rastros visíveis. Só uma sensação difusa de que algo falta, que algo ficou pra trás, que algo era e não é mais. 

 

O tempo não apaga; ele esculpe a ausência, deixando-a tão nítida que, às vezes, é possível sentir o contorno do que já não está.  

 

Há quem diga que o tempo cura, mas penso que ele apenas faz com que a dor, antes aguda, torne-se uma coisa surda, um eco de si mesma. E mesmo quando julgamos ter esquecido, lá está ele, o tempo, soprando sobre a poeira das memórias, revelando que a ausência nunca foi vazio—apenas um molde do que um dia nos moldou.  

 

Restamos nós: seres feitos de buracos, de silêncios, de horas que já não nos pertencem, de pedaços que vivemos e partes que se foram. E o tempo, impassível, continua seu trabalho—especialista em transformar o que era em saudade.

 

Mas se ele não cura, ele ensina — às vezes com delicadeza, às vezes com brutalidade — que tudo é provisório. E que algumas presenças, mesmo quando viram ausência, continuam morando em algum lugar da gente.


segunda-feira, 31 de março de 2025

O OUTONO É UM PINTOR QUE NÃO TEM MEDO DO VAZIO

 


Há uma árvore no fim da rua que, que no outono, veste-se de fogo. 

Suas folhas não caem — dançam. 

Espalham-se em rodopios dourados, como se o vento as ensinasse a arte de deixar ir. 

O outono é assim: um pintor que não tem medo do vazio. 

 

O outono colore o mundo de âmbar e carmim, mas sussurra, em cada tonalidade, que a beleza está também no desapego. As copas, outrora cheias, aprendem a se revelar em nervuras e troncos retorcidos. Há uma verdade nos galhos nus: só perdendo o que se carrega é possível enxergar o próprio esqueleto, a estrutura que sustenta a vida mesmo quando a luz se vai.

 

A estação chega com passos de veludo, trazendo tardes curtas e céus de chumbo. 

O ar fica frio o suficiente para que cada respiro lembre: tudo é passageiro. 

As folhas secas, pisoteadas na calçada, estalam como memórias frágeis. 

Algumas são levadas pelos riachos formados pela chuva; outras se acumulam em cantos, esperando virar terra. 

 

O outono não é um fim, mas um ritual de entrega. 

A árvore não chora suas folhas — sabe que, para voltar a vestir-se de verde, precisa primeiro ficar nua. 

Precisa confiar no silêncio do inverno e na promessa sutil de raízes que trabalham no escuro.

Assim é a vida — uma colheita de momentos que precisam ser liberados. 

 

Há dores que pesam como maçãs maduras nos galhos: é preciso deixá-las cair para que não apodreçam em nossas mãos.

 Há amores que se despedem em tons de laranja, leves e breves, como a luz oblíqua que doura os campos ao entardecer. 

Aprendemos, com o tempo, que segurar demais sufoca. 

Que a plenitude está tanto no que se tem quanto no que se ousa soltar.

 

Mas o outono também é festa. É a uva que explode em doce nos vinhedos, o trigal que se inclina após anos de crescimento, a última dança dos pássaros antes da migração. 

Ele nos lembra que há beleza na maturidade, naquilo que, após florescer, se transforma em fruto. 

Mesmo o que parece morte é apenas mudança de estado: a folha que vira adubo, a semente que dorme sob a geada, o coração que, após partir-se, descobre novas formas de amar.

 

Quando o primeiro vento gelado cortar o ar, observe. 

Há sabedoria na árvore que não se envergonha de seus galhos descarnados. 

Há coragem na terra que aceita ser coberta pelo manto do desfalque, sabendo que, sob a superfície, algo germina. 

 

O outono não é nostalgia — é fé disfarçada de renúncia. 

E a vida, em sua essência, não pede que sejamos eternamente verdes. Apenas que, como as folhas, saibamos brilhar intensamente antes da queda... e confiar que, após o último suspiro dourado, virá o tempo de brotar de novo.

quarta-feira, 19 de março de 2025

O PASSADO TEM PÉS SILENCIOSOS E ANDA DESCALÇO SOBRE O TEMPO

 


O passado tem pés silenciosos.

Anda descalço sobre o tempo e, quando menos se espera, está de volta.

Ele bate na porta sem aviso, veste o perfume de antigas lembranças e se senta ao nosso lado como um velho amigo que nunca foi embora de verdade.

 

O passado, como um fantasma gentil, nos visita para nos lembrar de quem fomos, e do onde vivemos.

Às vezes, traz consigo dores que julgávamos enterradas, sussurrando ao ouvido que certos cortes nunca fecham por completo.

 

Mas a vida, essa grande senhora de ciclos, ensina que nem toda dor dura para sempre. 

Ela sabe que a chuva, mesmo quando cai pesada, lavando as ruas e afogando os olhos, cedo ou tarde se cansa. E passa.

O céu, outrora fechado e carregado de trovões, se abre devagar, como um coração aprendendo a perdoar.

O vento leva embora o peso das nuvens, e o sol se atreve a nascer de novo.

 

As dores da vida também seguem essa lógica: doem como tempestades, arrastam tudo em seu caminho, fazem parecer que o mundo inteiro é feito de lama e frio. Mas um dia, sem que se perceba exatamente quando, aquela ferida que ardia já não dói tanto.

O passado pode até voltar, mas nunca com a mesma força. E a chuva sempre passa, deixando no ar o cheiro fresco de um novo começo.

 

A vida, em sua infinita sabedoria, nos ensina que a dor é parte da jornada, mas que a alegria sempre encontra um caminho para nos alcançar.

Assim como a chuva que cessa, a dor se dissipa, revelando a beleza que sempre esteve presente, mesmo nos dias mais sombrios.




terça-feira, 17 de dezembro de 2024

SOU COMO A PRIMAVERA, NUNCA TENHO AS MESMAS FLORES


Nasci na primavera, com dias mais coloridos e perfumados. 
Dias cheios de flores, com cores mais vibrantes e noites serenas. Tempo em que a natureza renasce.

Assim como a primavera quero renascer cada dia mais florida, por dentro, onde tem o que há de mais belo.
Quero a serenidade do sopro do vento no farfalhar das folhas e a cada primavera ser como ela: nunca tem as mesmas flores.

Guardo na memória, com muita gratidão, o cheiro do perfume das muitas rosas no jardim da vida, mas lembro-me também, com carinho, dos espinhos.
Eles doeram mas também me protegeram para que eu crescesse forte.

As flores sabem que a primavera passa depressa, então apenas florescem.
Não se preocupam em nada além do que florescer.
Por isso, quero colher a beleza das flores, brindar a alegria das folhas e experimentar o sabor das frutas.
Sentir o gosto do tempo, nas asas do vento.

Que o coração bata em suave compasso, não se incomodando com as esperas. 
As muitas primaveras te ensina que o tempo é feito de esperas.
E a esperança faz renascer a vontade de seguir.

Quero experimentar a vida nas cores da primavera, enquanto é tempo de rosas. 
Abrir espaço para o novo brotar e eu florescer.




quinta-feira, 14 de novembro de 2024

O CAMINHO SE REVELA, NÃO NA CHEGADA, MAS NO ATO DE CAMINHAR

 


“Caminhante, não existe caminho, o caminho acontece ao caminhar”

Não te iludas com trilhas traçadas ou mapas detalhados. O horizonte que vislumbras não se desenha por si só, mas pelos passos que ousas dar. O destino não está pré-escrito, é um vasto campo de possibilidades, moldado por cada pegada que deixas na terra.


Cada escolha é uma nova pincelada numa tela em branco, cada decisão uma nota numa melodia inédita. Assim como a correnteza do rio esculpe seu leito ao fluir, tu moldas o caminho ao avançar. 


Não há estrada que te pertença antes que a percorra. És como o vento que dança livremente, sem fronteiras fixas, apenas o desejo de mover-se. Cada passo é uma história, cada desvio uma nova descoberta. 


A senda que segues é tecida com teus sonhos, medos e esperanças. Ela surge na espontaneidade do momento, no pulsar do teu coração que insiste em explorar. E assim, caminhante, o caminho se revela, não na chegada, mas no próprio ato de caminhar.


“O caminho muda e muda o caminhante”


Caminhante, ao seguir pela estrada desconhecida, és como a argila nas mãos do oleiro. O caminho, em sua vastidão e mistério, te transforma de maneiras sutis e profundas. Cada passo que dás é um encontro com o novo, um convite para a mudança.


A cada curva, deixas um pouco de ti para trás, e o que permanece é moldado pela jornada. És como a pedra bruta que, ao rolar pelas encostas, se desgasta e se refina, revelando facetas antes ocultas. O vento que te sopra no rosto e o sol que te aquece a pele são mais do que elementos da natureza; são escultores do teu espírito.


O caminho não é apenas um cenário que atravessas; ele é um mestre silencioso que te ensina lições de resiliência, paciência e descoberta. A poeira que se levanta sob teus pés carrega histórias, e as marcas que deixas no solo são testemunhas da tua evolução.


Em cada passo, uma nova parte de ti desperta. És como a árvore que, ao mudar de estação, renova suas folhas, flores e frutos. Na caminhada, renasce um novo eu, mais sábio, mais forte, mais consciente do mundo e de si mesmo.


Assim, ao final de cada jornada, não és o mesmo que iniciou o percurso. O caminho mudou-te, e tu, em resposta, moldaste o caminho. Caminhante, teu destino não é um ponto fixo, mas uma constante reinvenção, um eterno renascer.


quinta-feira, 10 de outubro de 2024

A COMPLEXIDADE QUE HÁ NO SIMPLES




O simples, muitas vezes, é o resultado de um processo de depuração, de eliminação do excesso, de redução ao essencial. Mas, para alcançar essa pureza, é necessário um olhar aguçado, uma compreensão profunda do que realmente importa.

O simples é uma linguagem sutil, que comunica mais pelo que não diz do que pelo que expressa.


No traço leve de um pincel, desenho um universo inteiro,

No silêncio que acalma o mar, as ondas profundas dançam caladas.

A complexidade do simples é um paradoxo fascinante, na aparente simplicidade reside uma intricada teia de significados, nuances e intenções. 


Contemplo a complexidade que há no simples.

A perspectiva que se vê, é o que define o tamanho que você dá as coisas.

As vezes, é preciso passar por experiências complexas para aprender a valorizar o essencial. 


Aprendi a contemplar o medo e abraçar a dor, eles são menores quando você os encara

Cada folha que cai ao chão guarda um segredo na queda.

Um simples gesto que se entende é um mundo a se revelar

Na gota d'água que cai do céu, vê-se a grandeza do temporal.


Não nego a minha escuridão, por que ela me faz reconhecer a luz.

Ao reconhecer essa dualidade aprendo a domar meu interior

Não posso ser humana sem minhas sombras.


⁠Quero ser revestida pela intensidade extrema dos meus sentimentos, na dualidade entre o amor e a razão. 

Vivo num paradoxo constante. 

Em uma obra de arte minimalista, onde cada linha, cada cor, cada espaço vazio é carregado de intenções. 


O simples não é a ausência de complexidade, mas sim sua sublimação. 

É o ponto em que o complicado se resolve, onde o excesso é transformado em clareza. 

É a essência, depurada, pronta para ser apreciada em sua forma mais cristalina.

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