Há ciclos que se fecham com estrondo, como portas batidas por um vento que não controlamos. Outros se encerram em silêncio, tão lentamente que só percebemos quando já estamos longe demais para ouvir o eco do que fomos do que deixamos. E há aqueles que simplesmente se dissolvem, como tinta na água, até restarem apenas memórias que podem doer ou não, mas que de qualquer forma já não chamam mais pelo nosso nome.
Às vezes, percebemos o fim apenas quando olhamos para trás e não reconhecemos mais o caminho, nem a própria pegada que deixamos nele. E entendemos, então, que aquilo que um dia nos definiu já não mora em nós.
Existem vínculos, afetos, presenças, não importa o nome que se dê, que se transformam com o tempo. O tempo, que arrasta estações e muda paisagens, também muda pessoas e tem passos próprios, e muda a rota.
Às vezes, há rompimentos por distâncias que o mapa explica; outras vezes, por distâncias que nenhum mapa traduz. Mas há também o que muda porque nós mudamos. O que antes cabia na nossa pele, hoje não encontra espaço. O que antes nos fazia sentido, agora pesa. E o que um dia nos completou, hoje apenas pertence ao que fomos.
Nesse movimento, há sempre algo de invisível. Nem sempre é o tempo que afasta; às vezes, são pequenas feridas que não cicatrizam no mesmo ritmo, pequenos silêncios que se acumulam, gestos que deixam de acontecer. Mágoas leves, quase imperceptíveis, mas que crescem como ervas entre as pedras e, quando damos por nós, o caminho já está irreconhecível. Não porque desejamos perder, mas porque perdemos sem perceber.
E assim seguimos, carregando versões antigas de nós mesmos que um dia tentaram permanecer, mas que, pouco a pouco, se esfarelaram. A pessoa que fui, aquela que sustentava certos laços, certas certezas, certas entregas, ficou presa em um tempo que não volta mais. Hoje caminho diferente, penso diferente, sinto diferente. E é natural que aquilo que existia em torno daquela versão também tenha se dissolvido, ficou guardada em algum canto do passado, como um retrato que não me representa mais. Hoje carrego novos medos, novas certezas, novos horizontes. Sou feita de outras paisagens internas, outros afetos, outras urgências.
E talvez você também tenha mudado, cada um a seu modo. Talvez tenhamos deixado de nos reconhecer não porque deixamos de gostar um do outro, mas porque deixamos de ser quem éramos. Existem vínculos que só existem dentro de uma época e quando essa época termina, o vínculo termina junto, mesmo que reste carinho. É como se tivesse sido escrita em uma estação que já passou.
O ciclo se fecha não como um gesto brusco, mas como a conclusão inevitável de uma narrativa que não tinha mais páginas para escrever. Um fim que não precisa ser declarado para ser compreendido. Algo que simplesmente deixou de se encaixar, como roupas que já não vestem o corpo que mudou.
Há uma tristeza delicada nisso, mas também há beleza. Fecha-se um ciclo, não em derrota, mas em aceitação. A vida nos ensina que nem tudo que começa precisa permanecer; algumas coisas vêm apenas para nos tornar quem somos. E se hoje sou outra pessoa, devo parte disso ao que vivi.
E, mesmo que haja uma sombra de dor nesse encerramento, existe também liberdade. Libertação do que já não nos acompanha, do que não conversa mais com o que somos hoje. Há uma beleza silenciosa em permitir que algo termine, sobretudo quando essa ruptura não vem de um único ato, mas de uma transformação profunda, íntima, que nos empurra para outros horizontes.
Não há retorno, não porque não seria bem-vindo, mas porque a pessoa que poderia voltar não existe mais. E a que existe agora caminha para frente, onde novos ciclos começam, onde novas histórias se formam.
Assim, deixo que esse ciclo se feche com delicadeza, com o reconhecimento de que ele cumpriu seu papel e reconhecendo que já não precisa continuar. O que vivi em outro tempo pertence àquela pessoa que eu já não sou. E seguir adiante é o gesto mais sincero que posso oferecer a tudo o que ficou para trás.
É assim que alguns ciclos se encerram: não com adeus, mas com entendimento. Com a gratidão silenciosa por tudo o que foi e pela liberdade de seguir adiante.









