A vida se move em círculos, como se cada existência obedecesse a um relógio secreto que não marca horas, mas pulsações. E assim como o ano se desdobra em estações, também nós desabrochamos, ardemos, caímos e renascemos — sempre um pouco diferentes, sempre um pouco mais nós mesmos.
Há momentos de primavera, quando tudo parece possível. É quando a alma abre janelas para dentro e para fora, permitindo que a luz encontre seus cantos esquecidos. Brotam ideias, afetos, delicadezas. O mundo parece feito de uma leveza que não pesa, de caminhos que se multiplicam. Somos sementes despertando, percebendo que dentro de nós há mais vida do que imaginávamos. É o tempo do encantamento, da descoberta, da coragem suave de começar.
Mas a primavera não dura para sempre. Avançamos para o verão, quando o sol esquenta demais e exige intensidade. É a fase das grandes decisões, dos dias longos, da urgência de viver tudo o que antes estava apenas germinando. O calor nos ensina força e resistência. Há brilhos e tempestades, há alegrias que explodem como fogos no céu e cansaços que pesam como a própria luz. No verão, somos chamados a provar o que desejamos, a sustentar o que floresceu, a lidar com a plenitude e com o excesso. É um tempo bonito, mas é também o mais exigente.
Até que chega o outono, aquela estação que ensina a beleza do desapego. Nada mais precisa ser tão forte, tão urgente. As folhas começam a cair como pequenos adeuses, e cada uma delas lembra que é preciso deixar ir. É o período das revisões internas, das escolhas silenciosas, dos afetos que se reorganizam. As cores mudam, e nós mudamos com elas. No outono, aprendemos que perder também é um modo de seguir; que o desprendimento é, às vezes, o único caminho para reencontrar nossas próprias raízes.
Então vem o inverno, com seu frio que não é castigo, mas convite. Convite ao recolhimento, à escuta, ao descanso. É quando o mundo lá fora parece mais quieto, e o mundo dentro de nós se torna mais audível. Há uma poesia na dormência, uma força na pausa. O inverno nos convida a nos recolhermos para que algo, em silêncio, se recomponha. Não é o fim — é a preparação. Uma longa respiração antes de um novo ciclo.
E assim seguimos, estação após estação, deixando para trás e levando conosco aquilo que faz sentido. A vida não é linha reta; é espiral. A cada volta, repetimos algo do que já fomos, mas nunca do mesmo jeito. Somos primavera quando renascemos, verão quando lutamos, outono quando aceitamos, inverno quando nos reconstruímos. E em cada estação, descobrimos um fragmento da nossa própria eternidade — essa que reside no simples fato de continuar vivendo, transformando, circulando.
Porque no fundo, viver é isso: atravessar as estações sabendo que nenhuma delas nos define para sempre, mas todas nos completam. É aceitar a mudança como lei natural e a continuidade como milagre cotidiano. É ser, ao mesmo tempo, flor e folha, calor e silêncio, brilho e raiz. É reconhecer que a vida, em sua dança de ciclos, nos ensina a arte mais delicada de todas: a de recomeçar.

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